![]() |
| Mary I of England (1516-1558), the Bloody Mary Imagem daqui |
Talvez eu não seja a pessoa mais delicada do planeta, mas
não chego a ser a mais insensível.
Me delicio com os prazeres deste mundo e sofro pelas mazelas
dele.
A vida nunca fez sentido a maior parte do tempo, embora
tenha sido bastante sentida e vivida até o momento presente.
Fosse minimamente reduzida a intensidade do que é sentido e
eu não sei se suportaria.
Funciona basicamente como um motor que trabalha com períodos
cíclicos. De tempos em tempos ele dá um impulso que manda tudo para a beira do
precipício e, logo depois disso, exige que se tente encontrar uma explicação
lógica para o que é e uma motivação para o que virá, sem, sob todas as luzes da
razão, ignorar o que foi.
Eu não sei o que as pessoas esperam de mim e, naturalmente,
adoraria descobrir. Porém, receio que não seja possível, e não por desinteresse
– que fique claro – e sim por conta do tempo. Sim, do tempo! Eu não tenho muito
dele no meu estoque, então creio que devo usá-lo sabiamente e esse tipo de
curiosidade não está no topo da minha lista de prioridade. É uma questão de
praticidade e eficiência, como pode ver.
Obviamente que isso não me faz ignorar essas pessoas e, no
melhor dos meus esforços, eu posso recomendar que, então, não esperem muita
coisa. Não que eu não tenha o que oferecer – modestamente, penso que sou capaz
de ser muito útil, sempre que desejar – a coisa toda se repousa no pequeno
detalhe de que nem tudo o que é esperado vem e, nem sempre, quando vem, chega
do modo como foi aguardado. Juntando-se a isso o fato de que desconheço (na sua
grande maioria) o que é esperado de mim, vejo evidentemente no horizonte a
nuvem negra que é o risco de despontar alguns desapercebidamente. Logicamente,
não é nada confortável viver sob os auspícios de tamanha tempestade. Tentar me
livrar dela torna-me uma pessoa egoísta, muito embora não só eu venha a ser
beneficiado por tal atitude.
Há de se convir que não sabemos tudo, porém, não deixamos de
pertencer ao todo. Engraçado.
O tempo passa e, se você for sincero e desapegado a
nostalgia, perceberá o quando e por onde mudou, e quem e o que mudou. Difícil, na
maioria das vezes, é saber por que mudou. E o homem teme a ignorância como um
fator regressivo a sua posição inteligente e racional. Toda vez que nos
descobrimos ignorantes perante algum tema, regredimos ao estado de simples
símios que estão aprendendo a aperfeiçoar suas primeiras ferramentas
rudimentares.
Os dias podem ser tão excitantes quanto a um molho Tabasco
ou tão monótonos quanto a um suco de tomates. Um pouco de vodka e algumas
gotinhas de Lea & Perrins e temos um formidável Bloody Mary.
Fascinante a nossa capacidade de manuseio e como a
utilizamos de modo precário. Triste tão mais.
Vez ou outra é possível que eu permita que este suco de
tomates azede (por vontade própria ou não). E eu não gosto de vodka pura. Resta o Tabasco.
