terça-feira, 24 de julho de 2012

Bloody Mary


Mary I of England (1516-1558), the Bloody Mary
Imagem daqui

Talvez eu não seja a pessoa mais delicada do planeta, mas não chego a ser a mais insensível.

Me delicio com os prazeres deste mundo e sofro pelas mazelas dele.

A vida nunca fez sentido a maior parte do tempo, embora tenha sido bastante sentida e vivida até o momento presente.

Fosse minimamente reduzida a intensidade do que é sentido e eu não sei se suportaria.

Funciona basicamente como um motor que trabalha com períodos cíclicos. De tempos em tempos ele dá um impulso que manda tudo para a beira do precipício e, logo depois disso, exige que se tente encontrar uma explicação lógica para o que é e uma motivação para o que virá, sem, sob todas as luzes da razão, ignorar o que foi.

Eu não sei o que as pessoas esperam de mim e, naturalmente, adoraria descobrir. Porém, receio que não seja possível, e não por desinteresse – que fique claro – e sim por conta do tempo. Sim, do tempo! Eu não tenho muito dele no meu estoque, então creio que devo usá-lo sabiamente e esse tipo de curiosidade não está no topo da minha lista de prioridade. É uma questão de praticidade e eficiência, como pode ver.

Obviamente que isso não me faz ignorar essas pessoas e, no melhor dos meus esforços, eu posso recomendar que, então, não esperem muita coisa. Não que eu não tenha o que oferecer – modestamente, penso que sou capaz de ser muito útil, sempre que desejar – a coisa toda se repousa no pequeno detalhe de que nem tudo o que é esperado vem e, nem sempre, quando vem, chega do modo como foi aguardado. Juntando-se a isso o fato de que desconheço (na sua grande maioria) o que é esperado de mim, vejo evidentemente no horizonte a nuvem negra que é o risco de despontar alguns desapercebidamente. Logicamente, não é nada confortável viver sob os auspícios de tamanha tempestade. Tentar me livrar dela torna-me uma pessoa egoísta, muito embora não só eu venha a ser beneficiado por tal atitude.

Há de se convir que não sabemos tudo, porém, não deixamos de pertencer ao todo. Engraçado.

O tempo passa e, se você for sincero e desapegado a nostalgia, perceberá o quando e por onde mudou, e quem e o que mudou. Difícil, na maioria das vezes, é saber por que mudou. E o homem teme a ignorância como um fator regressivo a sua posição inteligente e racional. Toda vez que nos descobrimos ignorantes perante algum tema, regredimos ao estado de simples símios que estão aprendendo a aperfeiçoar suas primeiras ferramentas rudimentares.

Os dias podem ser tão excitantes quanto a um molho Tabasco ou tão monótonos quanto a um suco de tomates. Um pouco de vodka e algumas gotinhas de Lea & Perrins e temos um formidável Bloody Mary.

Fascinante a nossa capacidade de manuseio e como a utilizamos de modo precário. Triste tão mais.

Vez ou outra é possível que eu permita que este suco de tomates azede (por vontade própria ou não). E eu não gosto de vodka pura. Resta o Tabasco.

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