segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Tendo


Tendo a ter a mim mesmo,
Ao final do dia.
E não é o que basta,
Mas é o que é meu.

Tendo a ter a mim mesmo,
Ao final de tudo.
E não é o que me supre,
Mas é o que não me escapa as mãos.

Tendo a não ter rima, nem jogo,
Mas tendo a ter,
Se sentindo o bruxuleante fogo,
O sentido do que é ser

Tendo a esquecer,
Que nada tenho.


Daqui aqui

terça-feira, 24 de julho de 2012

Bloody Mary


Mary I of England (1516-1558), the Bloody Mary
Imagem daqui

Talvez eu não seja a pessoa mais delicada do planeta, mas não chego a ser a mais insensível.

Me delicio com os prazeres deste mundo e sofro pelas mazelas dele.

A vida nunca fez sentido a maior parte do tempo, embora tenha sido bastante sentida e vivida até o momento presente.

Fosse minimamente reduzida a intensidade do que é sentido e eu não sei se suportaria.

Funciona basicamente como um motor que trabalha com períodos cíclicos. De tempos em tempos ele dá um impulso que manda tudo para a beira do precipício e, logo depois disso, exige que se tente encontrar uma explicação lógica para o que é e uma motivação para o que virá, sem, sob todas as luzes da razão, ignorar o que foi.

Eu não sei o que as pessoas esperam de mim e, naturalmente, adoraria descobrir. Porém, receio que não seja possível, e não por desinteresse – que fique claro – e sim por conta do tempo. Sim, do tempo! Eu não tenho muito dele no meu estoque, então creio que devo usá-lo sabiamente e esse tipo de curiosidade não está no topo da minha lista de prioridade. É uma questão de praticidade e eficiência, como pode ver.

Obviamente que isso não me faz ignorar essas pessoas e, no melhor dos meus esforços, eu posso recomendar que, então, não esperem muita coisa. Não que eu não tenha o que oferecer – modestamente, penso que sou capaz de ser muito útil, sempre que desejar – a coisa toda se repousa no pequeno detalhe de que nem tudo o que é esperado vem e, nem sempre, quando vem, chega do modo como foi aguardado. Juntando-se a isso o fato de que desconheço (na sua grande maioria) o que é esperado de mim, vejo evidentemente no horizonte a nuvem negra que é o risco de despontar alguns desapercebidamente. Logicamente, não é nada confortável viver sob os auspícios de tamanha tempestade. Tentar me livrar dela torna-me uma pessoa egoísta, muito embora não só eu venha a ser beneficiado por tal atitude.

Há de se convir que não sabemos tudo, porém, não deixamos de pertencer ao todo. Engraçado.

O tempo passa e, se você for sincero e desapegado a nostalgia, perceberá o quando e por onde mudou, e quem e o que mudou. Difícil, na maioria das vezes, é saber por que mudou. E o homem teme a ignorância como um fator regressivo a sua posição inteligente e racional. Toda vez que nos descobrimos ignorantes perante algum tema, regredimos ao estado de simples símios que estão aprendendo a aperfeiçoar suas primeiras ferramentas rudimentares.

Os dias podem ser tão excitantes quanto a um molho Tabasco ou tão monótonos quanto a um suco de tomates. Um pouco de vodka e algumas gotinhas de Lea & Perrins e temos um formidável Bloody Mary.

Fascinante a nossa capacidade de manuseio e como a utilizamos de modo precário. Triste tão mais.

Vez ou outra é possível que eu permita que este suco de tomates azede (por vontade própria ou não). E eu não gosto de vodka pura. Resta o Tabasco.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Condenação


Senta ali
Senta ali e espera.

Um dia desses o passado vai te dizer
"Eu não volto!"
E o futuro vai sussurrar
"Eu jamais virei..."

E quando for perguntado, é claro,
D'onde vem esse peso
Que te puxa pro centro da Terra
Cousa do estômago esta
Falará que preferia não tê-lo.

Oh, injustiça do inferno!

Serei Eu o Prometeu
Dos tempos que são,
Eternamente corroído,
Sem qualquer Quíron
Que me tire deste ciclo maldito?

Talvez quando o poeta fugir da rima E
As estrelas caírem do céu OU
Quando dois mais dois for três E
As montanhas forem mergulhar no mar

Talvez eu seja livre
E O Corvo me deixe em paz!


Por Christian Schussele (1824-1829)



domingo, 22 de abril de 2012

Pernod

Ernesto:
- O amanhã existe?

Augusto:
- Espero que sim! Mas para não morrermos em dúvida, amigo, sugiro-lhe que tentemos viver sobre o que temos de táctil e real. Que pensa sobre?

Ernesto:
- Garçon! Mais dois Pernod's por favor. Grato!



Imagem daqui

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Amizade

Sir Ernesto:
- Meu bom camarada, quando sei que conto com um amigo de verdade em minha vida?

Sir Augusto:
- Bem, meu caro, a partir do momento em que juntos, já não negam mais os peidos de um para o outro, creio que acaba de nascer uma verdadeira amizade.

Sir Ernesto:
- Sábias palavras, Augusto, e honestas também!


Foto daqui

sábado, 7 de abril de 2012

Vá!


Talvez eu nunca saiba o que é felicidade. Não como ela é comumente conhecida, ao menos. Porém, vez ou outra, algo muito bom vai acabar me atingindo, como um rápido lance de luz, um cometa que temos a chance de ver numa noite inesperada, e que passa tão rápido e quase despercebido como surgiu. Nestes momentos eu saberei que estou vivo e porque estou vivo, e então descobrirei do que eu sou feito e o que farei.

Uma boa bagagem montada pelos anos, uns marcos na estrada, uma curva final, um final.
Um grande final, um pequeno final. Um mosaico do nada, montado pelas peças do tudo.

Viver foi a única opção dada.


Acervo pessoal (direitos protegidos)

domingo, 25 de março de 2012

Rítmo

Coisas movem pessoas. Pessoas movem coisas.
Coisas podem ser sonhos, objetivos, crenças, desejos
Amor ou ódio.

Pessoas são somente pessoas – no final de tudo –
Ou pequeninos deuses nos seus Olimpos particulares.

Só e só.

Faça o que tiver de fazer
Talvez no meio do caminho encontre
Você!
Se encontrar, diga:
“Logo vou ter contigo”.
               
Ao inferno
Tudo

Ao redor
Nada

Vá e deixa ser  
Fica e deixa estar


Provém daqui.


domingo, 11 de março de 2012

Silêncio


Sempre fui um venerador do silêncio. Adorei desde que me lembro os momentos em que não havia ruídos ou frases que me dispersavam em mim mesmo. Cultuei com os maiores afincos as ausências das perturbações fonéticas que sempre me tiraram do eixo.

Mesmo o silêncio do pensamento nunca me fez qualquer mal.

E neste exato momento convivo com esse meu adorado. E agora a ótica é outra, pois ele vem quando eu não o esperava.

Desde que me acostumei com essa melodia nova, de som agradável e exótico, de personalidade inquieta e instigante, pude perceber que seria possível descobrir nela tons e notas totalmente inovadoras para o meu eu.

É ruim quando a música é interrompida antes do final (ou do que você julga ser o final).

Outro dia sonhei que ouvia uma música que não tinha fim.

Como algumas cousas na vida, a música é boa porque nos toca. Obviamente que podemos e somos tocados por outras artes (das acadêmicas e as da vida), mas desconheço algo que atinja a alma com tanta precisão quanto à música.

E se apenas ouvir já nos faz seguir viagens a mundos distantes, tente imaginar vivê-la!

Pois a vida é música. Melhor, a vida é uma música. Música esta que é ouvida por nós mesmos e pelo mundo.

Somos a música que quisermos ser. Com toda a polifonia a qual julgamos ter direito.

E neste momento espero que a minha melodia volte a tocar, mais vívida do que jamais fora.



*escrito originalmente em 20/12/2011.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Característica

É como uma porcelana. Uma porcelana branca com um detalhe vermelho.

E esse detalhe não é um um defeito, é apenas uma característica.

Por isso, não adianta tentar limpar o que não é sujeira. Não há o que remova! E ainda há o risco de que a peça seja destruída.

Contemple e agradeça, então, este mero detalhe que faz toda a diferença na composição final.

E beba seu café.