quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Móveis

Mamãe não gosta de trocar os móveis e nem de mudá-los de lugar.

Desde que moramos onde moramos, os móveis estão do mesmo jeito, em suas mesmas posições.
Isso é bom e ruim.
É bom, porque eles estarão lá, no mesmo lugar, onde estou acostumado que estejam.
E é ruim, porque eles estarão lá, no mesmo lugar, onde estou acostumado que estejam.


Foto daqui

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Som


Exatamente extasiante, é o que eu posso dizer. Não sei explicar por que. Ouvi esta música muitas outras vezes antes.

Pois bem, estava ao almoço de Natal, por volta das dezesseis e trinta. Só. E coloquei qualquer música para acompanhar o banquete. Gosto que haja música quando estou à mesa, e melhor se não houver ninguém para interromper a audição.

Lombo com vagens e aspargos, arroz com passas, damasco e amêndoas. Saladas. Uma de alface com trigo. A outra era uma linda composição de champignons, cerejas, alcaparras, milho, aliche e pignoli. Vinho do Alentejo, safra 2007. Prato de barro, talheres de inox e taça de cristal.

E a sensação veio. Não saberei jamais precisar quando começou, pois já estava tomado por completo pela melodia quando a percebi.

Calafrios na nuca descendo até a bacia. As pernas estavam como se desligadas. As mãos que seguravam os talheres por nada os soltaram. A consciência de estar e de ser já se confundia com o tempo e com o próprio ritmo do som. Os olhos lacrimejaram, mas sem derrubar uma gota. A ciência largou o corpo a mercê dos sentidos, e este se deixou preencher por completo pela grandeza das vozes e tons que repercutiram dentro de si.

Deixei de ser um para ser tudo. E o Todo me contemplou me somando e me fazendo ser música. E fui música sem qualquer reserva de ser.

A última nota se fora, me devolvendo ao mundo físico.

E agora eu era outro. Mudado e tocado, num dia qualquer de Dezembro.

Tinha começado a viver.
               

Foto daqui

domingo, 18 de dezembro de 2011

Dieta


Hoje eu vi três pessoas lendo. Três. Todas de uma vez, cada uma com o seu livro. Um era sobre a Primeira Guerra mundial, “Nada de Novo no Front”. O outro era “Guerra dos Tronos”, enorme. O último tinha relação com coisas de oração. Não pude ver o título.

Ler é como participar de um banquete. Você pode se fartar, consumindo a maior quantidade de coisas no menor espaço de tempo, ou usar da parcimônia e ir se servindo conforme sua digestão permita.
O fato é que necessitamos saber por que fazemos as coisas que fazemos. Quando temos o hábito de ler, necessitamos conhecê-lo então. Você sabe por que você lê?


Não saber a utilidade dos atos que você toma pode acarretar em terríveis frustrações. É simplesmente ruim você possuir algo e não saber o que fazer com isso.

Pois é assim que nos surgem os famigerados pseudo-intelectuais. Belas criaturas cujo motivo de existência ninguém compreende (incluindo os próprios). E eles sabem muito sobre tudo, mas não entendem coisa alguma. Conhecem todas as citações dignas de serem repetidas, porém as repetem com uma frieza glacial, pois não conseguem entender o que dizem. E pior, não conseguem nem ao menos sentir que não sentem.
Que realidade é esta?

Não consigo nem ao menos supor o que eu seria se levasse uma vida assim, achando que sinto o que vem do outro, quando não sinto o que vem de mim. E não, não é questão de não entender o que sente, é questão de não sentir e só.

Pois bem, encontramos então algo relacionado com os limites para com a entrega às literaturas.
Ler é bom, ninguém pode negar isso. Ler idéias, tão quão melhor. Mas às vezes será necessário que se deixe estar um pouco só, ou nem tanto. Melhor é vez ou outra estar contigo mesmo, somente você e suas idéias.

Nós funcionamos como um processador. Podemos absorver muito do mundo, mas precisamos processar toda essa informação e devolver algo.

Se apenas engolimos sem que vejamos qualquer sentido, mais dia ou menos dia terminamos por vomitar tudo em cima de quem estiver mais próximo.

Tanta informação não compreendida dentro de alguém pode funcionar como pólvora perto do fogo. Uma hora se estoura tudo, em forma de dúvidas e crises existencialistas.

Seria então saudável para mente que vez ou outra passássemos a evitar pensamentos externos e ficássemos com os nossos próprios.

Quem lê geralmente se diz ou se percebe querendo fugir da alienação, da qual este mundo tão generosamente nos estimula a participar. Este deveria também se ocupar de cuidar para que não fosse alienado dentro das idéias alheias.

Não é confortável se encontrar perdido entre divagações que não se sabe serem suas ou deles. E é terrível não achar aplicação prática a sua bagagem.

Por isso, se posso recomendar algo, recomendo que quando de alimentação de corpo ou de alma, que sigamos a dieta da moderação. Que possamos morder, apreciar o sabor, engolir, digerir, fazer bom uso dos nutrientes que nos são necessários, dispensar os que não são e devolver isso em forma de inspiração para nós mesmos e para o mundo.

Aceita esta dieta?


Foto daqui.

*escrito em 14 de Dezembro de 2011.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Argila



Eu lembro exatamente das coisas que adorava fazer quando criança. Uma delas era brincar com argila. Atormentava minha mãe para que ela me desse dinheiro ou inventava que era trabalho de escola para que meu pai comprasse (e eles nunca desconfiaram de tanto trabalho em argila).

E eu lembro que ficava simplesmente maravilhado quando via aquele pacote cheio de barro em cima da mesa. Acho que em torno de meio quilo de barro. Meio quilo de barro todo meu.

Nunca fui e ainda não sou o melhor expoente das artes manuais. Confesso que já pensei se não portaria algum tipo de defeito, pois não tenho um mínimo de talento para a manipulação das coisas plásticas. Isso é terrível quando você tem um monte de idéias e seu corpo não te permite colocá-las em prática.

Recordo que sentava no chão, no meu quintal, enchia um pote de água, colocava um fragmento de mármore (de uma mesa que tinha quebrado certa vez lá em casa) entre as minhas pernas e começava o meu ofício.

Eram horas em que eu não pensava em mais nada a não ser em formas para encarnar naquele barro cinzento. Às vezes pensava tanto que o barro secava ainda em forma de bola, e eu tornava a reidratá-lo. Quando finalmente iniciava uma peça, nada mais me parava. Trabalhava como um verdadeiro ceramista, produzindo as mais horrorosas obras que alguém poderia criar. E não, não me enganava. Sabia perfeitamente que elas estavam tão feias quanto era possível estar. Isto era frustrante.

Não entendia porque ao chegar ao mundo físico, minhas idéias não se assemelhavam em nada com o que eu havia imaginado. Era como se o barro simplesmente recusasse a forma que eu tentava lhe impor. Se comportava como aquela criança de personalidade forte que em dia de festa se recusa a colocar a roupa sugerida pela mãe e simplesmente usa o trapo que melhor se adéqua a sua vontade.

No começo eu me enchia de ódio, destruía as peças e começava outra vez, e a cada vez pior ficava, pois já estavam com o acréscimo da raiva que me consumia – este é um costume do qual eu ainda não me livrei totalmente, nem sei se me livrarei.

Logo passei a entender que tudo tem a sua personalidade, que muitas das coisas não são perfeitas e que eu não poderia parar de tentar fazer por não conseguir que elas tomassem a forma que eu queria. Entendi também que o que importava pra mim realmente não era a forma final que as peças tomavam. Por mais feia que fosse aquela xícara torta, aquele boneco disforme e a máscara nariguda (usava minha própria cara como molde), compreendi que não era o resultado final o que eu buscava com mais afinco. Mas ainda não sabia o que eu buscava.

Claro que isso não foi automático. Passei por muita frustração até entender porque mesmo não tendo sucesso esperado, não limpava minhas mãos do barro. Me comportava como um sem-vergonha, dos mais chulos, que pensava consigo mesmo que jamais voltaria a tocar suas mãos naquela matéria fria da qual não conseguia a dominação, para, logo depois, estar cumprindo o ritual de pegar o mármore, o pote d’água e o barro outra vez.

Eu não nego que nutria esperanças em que chegaria o dia em que eu produziria uma peça digna a ser chamada de peça, não importando qual fosse ela.

Esse dia não chegou. Nunca fiz qualquer coisa em argila que fosse merecedora de se pousar os olhos. E com o tempo, acabei parando de tentar. Não por desistência, mas por mudança de interesses mesmo.

E hoje eu parei pra pensar sobre isso, só hoje, anos depois. E só agora eu entendi.
                                                                                                                                                                                            
É engraçado voltar assim pra sua infância e se descobrir tão sábio naquele seu mundinho de criança.

Pois eram as sensações que me moviam, era a sensação do ar livre quando ia pro quintal. A sensação do mármore que gelava entre minhas pernas pra logo esquentar sob o calor do sol. A sensação da água também fria, sendo o ponto de contato entre mim e o barro, aquele barro seco que se suavizava ao molhar, e que tomava formas, mesmo que não fossem exatamente as que eu pretendia lhe dar. E o barro. Ah, o barro era sublime, rebelde, mas sublime. Me enganava, me fazia ter esperanças para logo depois se tornar o que desejasse, sem qualquer consideração as minhas tentativas de torná-lo algo belo.

E foi isso o que eu busquei quando criança e é isso que eu venho buscando. Sensações. É por isso que eu acordo e por isso que eu ajo, para sentir. Somente.


Era a sensação de moldar, criar, de brincar de Deus, que me movia.
Foto Daqui.



*escrito em 11 de Dezembro de 2011.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Felicidade Clandestina - Clarice Lispector


Apesar de - Clarice Lispector


"... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, espararei quanto tempo for preciso."


Clarice Lispector

sábado, 10 de dezembro de 2011

Contraste


É como um lago. E estamos todos na beira dele. E precisamos saber que ele existe.


A terra firme é boa, nos sustenta o corpo, nos alimenta e passamos quase o tempo todo nela, tanto tempo que nos acostumamos e esquecemos que ela existe, que ela É. Então olhamos pro lago. Lindo e tentador. Entramos nele.

Alguns molham somente as canelas, outros dão um longo mergulho e voltam e há os que se jogam pra nunca mais voltar à superfície.

Os que só vão até o limite das pernas, é porque precisam sentir á água fria e não sólida para lembrarem o quanto é bom pisar na terra firme e aquecida pelo sol de primavera.

Dos que mergulham para voltar, bom, eles precisam chegar até o fundo para saberem os seus limites contrários, até onde eles poderiam ir. Estes correm o risco de encontrarem seu pedaço de chão bastante mudado quando voltarem, ou que este nem esteja lá, que tenha sido levado, ou vendido...

E finalmente os que mergulham para não voltarem jamais. É... neste caso, o que eles encontraram lá embaixo é tão melhor (ou o que tinham lá em cima era tão pior) que não vêem necessidade de retornar, preferem o que acharam, mesmo que acabem afogados.

E é isso, todos nós precisamos saber como é o lado de lá, para refletirmos sobre o lado de cá. E isso é uma constante, isso nunca termina e estamos sempre de um lado pro outro. E o único risco é de querer voltar e não achar o lado contrário como era quando foi deixado.

Pagaria pra ver?

Foto d'onde: Daqui

Do Passado



Isto fui eu em 2008.
E foi tropeçando nisto a pouco que resolvi voltar a guardar aqui o que eu escrevo.

Sem promessas, pra poder ser o que quiser e quando quiser.



SEXTA-FEIRA, 25 DE JULHO DE 2008

Carta ao inimigo

Eu poderia amar-te,
por mostrar-me como é vida,
mas não te amo

Eu poderia odiar-te,
por mostrar-me como há pessoas más num mundo tão vasto,
mas não te odeio

Eu poderia vingar-me de ti,
pelo o que já sofri em suas mãos,
mas não me vingo

Pois você me ensinou a ser superior

Com sua baixeza aprendi o quanto sou uma pessoa boa e melhor
Com o seu ódio aprendi a importância do amor
Com sua inimizade aprendi o valor do amigo
Com seu veneno aprendi o bom efeito de cura de uma conversa

São por essas razões que não te amo, nem te odeio e nem me vingo
Mas te reservo um lugar na minha mais importante ignorância.

QUINTA-FEIRA, 10 DE JULHO DE 2008

Sobre o Arrependimento

O arrependimento é algo difícil a ser tratado.
É uma das coisas mais difíceis de se conviver, e, embora muita gente diga que nunca se arrepende do que faz, cada pessoa tem o seu, mesmo lá no fundo, encoberto com camadas espessas de orgulho, ele ainda continua ali, ele está ali, ele “é” ali.
Poucas coisas são capazes de liquidar um arrependimento, uma dessas é o perdão (que não vem sempre) e a outra é a chance de refazer, que também não é freqüente, aliás, muito menos freqüente que o perdão, isto é, se ela aparecer, não a deixe escapar; a conseqüência será um arrependimento dobrado.
De todos os arrependimentos que uma pessoa pode ter, em minha opinião, nenhum é pior que de não ter feito, não ter realizado, de não ter ido, de não ter sido, de não ter amado, de não ter aproveitado, quando ela teve a oportunidade.
Conviver com o arrependimento é difícil, mas quando ele está acompanhado da dúvida, é quase, se não, insuportável. Nada mais angustiante do que se pegar pensando no famigerado “e se...”
É simplesmente ruim quando você pensa nas inúmeras possibilidades que resultariam aquela atitude que você não tomou.
Certamente a razão de você não ter tomado essa atitude foi o medo, o medo de se arriscar, medo do que poderia vir depois, e por causa desse medo acabou não vindo nada.
É estranho pensar que quase tudo nessa vida é único e momentâneo, e mesmo sabendo isso, nós deixamos escapar coisas realmente importantes e únicas e, por quê? Pelo simples fato de sermos humanos, e que por isso já viemos com um pacote de emoções e nele está incluído o medo. Não que o medo seja de exclusividade humana; praticamente todos os animais o têm, porém, neles o instinto é conservado, e isso os faz arriscar, enquanto em nós, o mesmo parece que é reprimido e esquecido. Já percebeu o quanto uma criança de 4 anos pode ser sincera, sem nenhum medo ou receio de falar o que pensa, enquanto uma de 10 já é bem comedida com as palavras, e uma pessoa adulta chega até a tolerar a maioria dos acontecimentos com bastante hipocrisia?
Isso é o nosso instinto que parece ser podado com o tempo, sobrando no final só um pequeno resquício do que era no inicio.
É a falta deste instinto que às vezes nos faz vacilar ante algumas escolhas, e são essas escolhas não feitas que se transformam em arrependimentos tempos depois.
Resumindo: não é sempre que você terá uma segunda chance, então tente não deixar escapar de primeira; o arrependimento são duas pedras muito pesadas, que você tem que carregar no coração, na mente ou em ambos.

SEXTA-FEIRA, 4 DE JULHO DE 2008

Começando

Primeiro dia!

Não há muito o que dizer, não ainda. Só que não tinha muita coisa pra fazer, me veio uma idéia em forma de lampejo e agora esse blog é inaugurado.

Não sei muito bem como vai começar e nem onde vai parar, mas espero que tenha alguma utilidade, pra mim e pra quem vier a ler (se alguém ler).Por enquanto é isso.

E assim se encerra o primeiro ato...