segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Som


Exatamente extasiante, é o que eu posso dizer. Não sei explicar por que. Ouvi esta música muitas outras vezes antes.

Pois bem, estava ao almoço de Natal, por volta das dezesseis e trinta. Só. E coloquei qualquer música para acompanhar o banquete. Gosto que haja música quando estou à mesa, e melhor se não houver ninguém para interromper a audição.

Lombo com vagens e aspargos, arroz com passas, damasco e amêndoas. Saladas. Uma de alface com trigo. A outra era uma linda composição de champignons, cerejas, alcaparras, milho, aliche e pignoli. Vinho do Alentejo, safra 2007. Prato de barro, talheres de inox e taça de cristal.

E a sensação veio. Não saberei jamais precisar quando começou, pois já estava tomado por completo pela melodia quando a percebi.

Calafrios na nuca descendo até a bacia. As pernas estavam como se desligadas. As mãos que seguravam os talheres por nada os soltaram. A consciência de estar e de ser já se confundia com o tempo e com o próprio ritmo do som. Os olhos lacrimejaram, mas sem derrubar uma gota. A ciência largou o corpo a mercê dos sentidos, e este se deixou preencher por completo pela grandeza das vozes e tons que repercutiram dentro de si.

Deixei de ser um para ser tudo. E o Todo me contemplou me somando e me fazendo ser música. E fui música sem qualquer reserva de ser.

A última nota se fora, me devolvendo ao mundo físico.

E agora eu era outro. Mudado e tocado, num dia qualquer de Dezembro.

Tinha começado a viver.
               

Foto daqui

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