Exatamente
extasiante, é o que eu posso dizer. Não sei explicar por que. Ouvi esta música
muitas outras vezes antes.
Pois bem, estava ao almoço de Natal, por volta das dezesseis
e trinta. Só. E coloquei qualquer música para acompanhar o banquete. Gosto que
haja música quando estou à mesa, e melhor se não houver ninguém para
interromper a audição.
Lombo com vagens e aspargos, arroz com passas, damasco e
amêndoas. Saladas. Uma de alface com trigo. A outra era uma linda composição de
champignons, cerejas, alcaparras, milho, aliche e pignoli. Vinho do Alentejo,
safra 2007. Prato de barro, talheres de inox e taça de cristal.
E a sensação veio. Não saberei jamais precisar quando
começou, pois já estava tomado por completo pela melodia quando a percebi.
Calafrios na nuca descendo até a bacia. As pernas estavam
como se desligadas. As mãos que seguravam os talheres por nada os soltaram. A consciência
de estar e de ser já se confundia com o tempo e com o próprio ritmo do som. Os olhos
lacrimejaram, mas sem derrubar uma gota. A ciência largou o corpo a mercê dos
sentidos, e este se deixou preencher por completo pela grandeza das vozes e
tons que repercutiram dentro de si.
Deixei de ser um para ser tudo. E o Todo me contemplou me
somando e me fazendo ser música. E fui música sem qualquer reserva de ser.
A última nota se fora, me devolvendo ao mundo físico.
E agora eu era outro. Mudado e tocado, num dia qualquer de
Dezembro.
Tinha começado a viver.
![]() |
| Foto daqui |

Nenhum comentário:
Postar um comentário