segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Argila



Eu lembro exatamente das coisas que adorava fazer quando criança. Uma delas era brincar com argila. Atormentava minha mãe para que ela me desse dinheiro ou inventava que era trabalho de escola para que meu pai comprasse (e eles nunca desconfiaram de tanto trabalho em argila).

E eu lembro que ficava simplesmente maravilhado quando via aquele pacote cheio de barro em cima da mesa. Acho que em torno de meio quilo de barro. Meio quilo de barro todo meu.

Nunca fui e ainda não sou o melhor expoente das artes manuais. Confesso que já pensei se não portaria algum tipo de defeito, pois não tenho um mínimo de talento para a manipulação das coisas plásticas. Isso é terrível quando você tem um monte de idéias e seu corpo não te permite colocá-las em prática.

Recordo que sentava no chão, no meu quintal, enchia um pote de água, colocava um fragmento de mármore (de uma mesa que tinha quebrado certa vez lá em casa) entre as minhas pernas e começava o meu ofício.

Eram horas em que eu não pensava em mais nada a não ser em formas para encarnar naquele barro cinzento. Às vezes pensava tanto que o barro secava ainda em forma de bola, e eu tornava a reidratá-lo. Quando finalmente iniciava uma peça, nada mais me parava. Trabalhava como um verdadeiro ceramista, produzindo as mais horrorosas obras que alguém poderia criar. E não, não me enganava. Sabia perfeitamente que elas estavam tão feias quanto era possível estar. Isto era frustrante.

Não entendia porque ao chegar ao mundo físico, minhas idéias não se assemelhavam em nada com o que eu havia imaginado. Era como se o barro simplesmente recusasse a forma que eu tentava lhe impor. Se comportava como aquela criança de personalidade forte que em dia de festa se recusa a colocar a roupa sugerida pela mãe e simplesmente usa o trapo que melhor se adéqua a sua vontade.

No começo eu me enchia de ódio, destruía as peças e começava outra vez, e a cada vez pior ficava, pois já estavam com o acréscimo da raiva que me consumia – este é um costume do qual eu ainda não me livrei totalmente, nem sei se me livrarei.

Logo passei a entender que tudo tem a sua personalidade, que muitas das coisas não são perfeitas e que eu não poderia parar de tentar fazer por não conseguir que elas tomassem a forma que eu queria. Entendi também que o que importava pra mim realmente não era a forma final que as peças tomavam. Por mais feia que fosse aquela xícara torta, aquele boneco disforme e a máscara nariguda (usava minha própria cara como molde), compreendi que não era o resultado final o que eu buscava com mais afinco. Mas ainda não sabia o que eu buscava.

Claro que isso não foi automático. Passei por muita frustração até entender porque mesmo não tendo sucesso esperado, não limpava minhas mãos do barro. Me comportava como um sem-vergonha, dos mais chulos, que pensava consigo mesmo que jamais voltaria a tocar suas mãos naquela matéria fria da qual não conseguia a dominação, para, logo depois, estar cumprindo o ritual de pegar o mármore, o pote d’água e o barro outra vez.

Eu não nego que nutria esperanças em que chegaria o dia em que eu produziria uma peça digna a ser chamada de peça, não importando qual fosse ela.

Esse dia não chegou. Nunca fiz qualquer coisa em argila que fosse merecedora de se pousar os olhos. E com o tempo, acabei parando de tentar. Não por desistência, mas por mudança de interesses mesmo.

E hoje eu parei pra pensar sobre isso, só hoje, anos depois. E só agora eu entendi.
                                                                                                                                                                                            
É engraçado voltar assim pra sua infância e se descobrir tão sábio naquele seu mundinho de criança.

Pois eram as sensações que me moviam, era a sensação do ar livre quando ia pro quintal. A sensação do mármore que gelava entre minhas pernas pra logo esquentar sob o calor do sol. A sensação da água também fria, sendo o ponto de contato entre mim e o barro, aquele barro seco que se suavizava ao molhar, e que tomava formas, mesmo que não fossem exatamente as que eu pretendia lhe dar. E o barro. Ah, o barro era sublime, rebelde, mas sublime. Me enganava, me fazia ter esperanças para logo depois se tornar o que desejasse, sem qualquer consideração as minhas tentativas de torná-lo algo belo.

E foi isso o que eu busquei quando criança e é isso que eu venho buscando. Sensações. É por isso que eu acordo e por isso que eu ajo, para sentir. Somente.


Era a sensação de moldar, criar, de brincar de Deus, que me movia.
Foto Daqui.



*escrito em 11 de Dezembro de 2011.

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