Hoje
eu vi três pessoas lendo. Três. Todas de uma vez, cada uma com o seu livro. Um
era sobre a Primeira Guerra mundial, “Nada de Novo no Front”. O outro era
“Guerra dos Tronos”, enorme. O último tinha relação com coisas de oração. Não
pude ver o título.
Ler é como participar de um banquete. Você pode se fartar,
consumindo a maior quantidade de coisas no menor espaço de tempo, ou usar da
parcimônia e ir se servindo conforme sua digestão permita.
O fato é que necessitamos saber por que fazemos as coisas que
fazemos. Quando temos o hábito de ler, necessitamos conhecê-lo então. Você sabe
por que você lê?
Não saber a utilidade dos atos que você toma pode acarretar
em terríveis frustrações. É simplesmente ruim você possuir algo e não saber o
que fazer com isso.
Pois é assim que nos surgem os famigerados
pseudo-intelectuais. Belas criaturas cujo motivo de existência ninguém
compreende (incluindo os próprios). E eles sabem muito sobre tudo, mas não
entendem coisa alguma. Conhecem todas as citações dignas de serem repetidas,
porém as repetem com uma frieza glacial, pois não conseguem entender o que
dizem. E pior, não conseguem nem ao menos sentir que não sentem.
Que realidade é esta?
Não consigo nem ao menos supor o que eu seria se levasse uma
vida assim, achando que sinto o que vem do outro, quando não sinto o que vem de
mim. E não, não é questão de não entender o que sente, é questão de não sentir
e só.
Pois bem, encontramos então algo relacionado com os limites
para com a entrega às literaturas.
Ler é bom, ninguém pode negar isso. Ler idéias, tão quão
melhor. Mas às vezes será necessário que se deixe estar um pouco só, ou nem
tanto. Melhor é vez ou outra estar contigo mesmo, somente você e suas idéias.
Nós funcionamos como um processador. Podemos absorver muito
do mundo, mas precisamos processar toda essa informação e devolver algo.
Se apenas engolimos sem que vejamos qualquer sentido, mais
dia ou menos dia terminamos por vomitar tudo em cima de quem estiver mais
próximo.
Tanta informação não compreendida dentro de alguém pode
funcionar como pólvora perto do fogo. Uma hora se estoura tudo, em forma de
dúvidas e crises existencialistas.
Seria então saudável para mente que vez ou outra passássemos
a evitar pensamentos externos e ficássemos com os nossos próprios.
Quem lê geralmente se diz ou se percebe querendo fugir da
alienação, da qual este mundo tão generosamente nos estimula a participar. Este
deveria também se ocupar de cuidar para que não fosse alienado dentro das
idéias alheias.
Não é confortável se encontrar perdido entre divagações que
não se sabe serem suas ou deles. E é terrível não achar aplicação prática a sua
bagagem.
Por isso, se posso recomendar algo, recomendo que quando de
alimentação de corpo ou de alma, que sigamos a dieta da moderação. Que possamos
morder, apreciar o sabor, engolir, digerir, fazer bom uso dos nutrientes que
nos são necessários, dispensar os que não são e devolver isso em forma de inspiração
para nós mesmos e para o mundo.
Aceita esta dieta?
*escrito em 14 de Dezembro de 2011.